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VISUALISMO [ARTE, TECNOLOGIA E CIDADE]

A primeira edição do Visualismo – Arte, Tecnologia e Cidade, aconteceu no Rio de Janeiro, em três etapas ao longo de 2015. A última etapa do ano foi entre 6 e 12 de setembro, em uma espécie de festival com 26 trabalhos apresentados em forma de projeção de vídeo em larga escala em espaço públicos (Parque Madureira, Central do Brasil e alguns prédios da Praça Mauá). É um projeto que trata das especificidades do contexto urbano, em ações para além da lógica dos espaços institucionais.

Fui convidado para fazer a curadoria dessa primeira edição, o que foi se mostrando um trabalho bastante amplo, envolvendo formatação de seminário, laboratórios de criação, acompanhamento de artistas, etc, em muitos processos de decisão, escolha (re)planejamentos e constante pesquisa. Tudo feito com muito prazer, com uma equipe incrível.

logo visualismo fundo branco_peq

VISUALISMO, SENSAÇÕES VISUAIS NA CIDADE
O espaço não é um dado fixo. Ele é moldado pelo uso. Que espaço é esse?

VISUALISMO coloca foco em manifestações artísticas que articulam novas sintaxes audiovisuais e se lançam para espaços abertos, adotando como suporte um pouco da imaterialidade da imagem em movimento, um pouco da arquitetura urbana, um pouco de uma arte em consonância com as tensões da cidade.

São experiências que refletem o uso expressivo de novas técnicas, afirmando formatos em processo, afetados por softwares de áudio e vídeo, pelas mudanças nas tecnologias de projeção de imagens em movimento, por possibilidades de articulação de tempo-espaço ainda em desenvolvimento,pelo diálogo com linguagens heterogêneas, estabelecidas ou não.Falamos de linguagens que não cabem dentro do esperado, que demandam uma nova atenção ao espaço à nossa volta,a partir da emergência de formatos que questionam a rigidez do acontecimento da obra em seus suportes ou ‘palcos’pré-definidos.

Pensamos na praça, na projeção ao ar livre, no prédio abandonado, nos habitantes em deriva, na heterogeneidade do centro da cidade, na tensão entre ideologias,na possibilidade de entendimento a partir de campos simbólicos abertos a interpretações,talvez menos dicotômicas.

Pensamos em zonas de intersecção, permeadas por pensamentos híbridos, quedariam novo vigor a uma configuração visual,entre arquitetura e imagem, que dariam conta de formatos que nem sempre se encaixam em estruturas previamente dadas.

VISUALISMO dá as boas-vindas a novos cinemas, a outras possibilidades de uma mesma essência cinemática. Antevê projetos experimentais que envolvemo suporte incerto como desafio, como parte da obra, e dá visibilidade ao espaço coletivo em que a obra acontece, em iniciativas que levam em consideração a realidade social de seu entorno.

VISUALISMO entende a cultura digital de nosso presente como um campo onde parece possível retomar modelos sinestésicos de percepção, potencializando os sentidos, brincando com seus cruzamentos, fazendo fluir mais livremente as linguagens que reverberam entre o corpo e o ambiente coletivo.

É isso: VISUALISMO aposta no ‘entre’ uma vez mais: entre a arte contemporânea e o cinema na praça, entre a tela limpa e aquela carregada de história, entre a convenção do espaço e o uso que se faz dele.

Lucas Bambozzi [curador – Visualismo]

mais: www.visualismo.com.br

 

Curto Circuito [Último Suspiro] no Sistema ECOS

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Curto Circuito [Último Suspiro], 2014

de Lucas Bambozzi

Instalação com 30 TVs de tubo tipo CRT . obra site-speceific para o Sistema ECOS

Uma espécie de videowall abandonado, formado por TVs que pulsam uma imagem ‘entranhada’, efeito colateral de sua condição eletrônica pré-digital. Em estado de entropia com a natureza, emitem um “último suspiro” de raio catódico. Retrato de precariedades e da obsolescência voraz nas tecnologias de imagens, há algo de incômodo nesse refluxo, talvez por sermos testemunhas de uma arqueologia que opera em nosso presente.

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Em meio às árvores, notamos uma montanha de TVs de tubo, no solo da praça Victor Civita. Aparentemente sem funcionamento, parecem ali há algum tempo, como mais uma forma de descarte de material eletrônico. Mas as telas cintilam, como uma descarga de luz, um lampejo de imagens aprisionadas, em curto-circuito reincidente.

ver mais informação na página do projeto aqui

 

Equipe de criação:

criação: Lucas Bambozzi

produção: Larissa Alves

desenvolvimento e cenografia: Leo Ceolin

cenotecnia: Sergio Lippe

 

Coisa Vista [operações aditivas] na ECO, Recife

Operações aditivas é um projeto que busca a criação de uma série de situações de processamento de áudio e vídeo em tempo real tendendo à produção de resultados imprevistos e/ou caóticos. É uma instalação cujo ponto principal de atenção reside na reprodução de uma base sonora em um processo contínuo de inclusão do ruído sonoro captado no entorno do ambiente onde ela é ouvida.

Coisa Vista está sendo apresentada pela primeira vez na exposição ECO, em Recife, com curadoria de Maria Duda Belem e Lucia Padilha.

O processamento do áudio de Operações Aditivas implica na interferência visual (por recurso de aceleração da velocidade inicial) em um vídeo que reproduz os textos:

“Não compreendo o que vi.

E nem mesmo sei se vi,

já que meus olhos

terminaram não se diferenciando

da coisa vista.”

Clarice Lispector (Paixao Segundo GH)

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“O essencial é saber ver

Saber ver sem estar a pensar,

Saber ver quando se vê

E nem pensar quando se vê

Nem ver quando se pensa.”

Alberto Caeiro (F. Pessoa)

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Conceito e direção: Lucas Bambozzi

Desenvolvimento tecnológico: Equipe Amarela (Matheus Knelsen, Lina Lopes, Paloma Oliveira, Caio Bonvenuto).

Assistencia e desenho sonoro: Caio Bonvenuto

Kinotrem na Galeria Expandida

A exposição Galeria Expandida, que abre nessa segunda-feira dia 05 na Luciana Brito Galeria aborda projetos na área de confluência entre comunicação e arte. Inspirado em grande parte pelo percurso do artista Waldemar Cordeiro, coloca o foco em nomes como Regina Silveira, Ricardo Basbaum, Gilberto Prado, Fabiana de Barros – e eu entre eles.

A exposição coloca em destaque também um projeto do qual fiz parte junto com uma grande turma de artistas. Realmente, revendo a ficha técnica do projeto fico impressionado como reunimos pessoas tão incríveis.

Falo do circuito de ações formado pelo Kinotrem, realizado em 1997 junto ao Arte/Cidade 3 e o fato é que depois de tanta discussão em torno dos artecidades, o projeto Kinotrem não foi devidamente documentado ou sequer lembrado em suas características.

Não houveram recursos por parte da exposição Galeria Expandida para reunir novamente a equipe e buscarmos juntos uma forma ideal de re-apresentação do projeto num formato póstumo. Em uma vertente mais histórica e outra mais contemporânea (faço parte de ambas), a curadoria optou por uma forma bem simples de expor o projeto, em uma espécie de videoteca onde constam as cerca de 190 fitas VHS que restaram. Ali estão as “materias assinadas” feitas pelo público, as transmissões ao vivo dos bairros do entorno do Arte/Cidade e os programas gravados em meses de pesquisa que antecederam a execução do projeto (realizadas por Patricia Trevelyan, Edu Abad e João Cláudio de Sena, que estiveram no processo até o fim).

Quem for na galeria vai entender o formato mais como um resgate conceitual do projeto do que uma documentação compatível com os esforços demandados na época. O kinotrem era uma proposta intrincada, que foi se modificando à medida em que entravam e saíam colaboradores, mentores e participantes. Inicialmente proposto a Eliane Caffé e a mim, convidamos também Renato Barbieri, que não permaneceu até o início dos trabalhos, principalmente por ter se mudado de São Paulo. Houveram desdobramentos conduzidos por outras equipes, como o desenho externo dos trens, concebido por Ricardo Ribenboim. Refiro-me ao ‘nosso’ projeto como um circuito de reverberação cobrindo com diferentes recursos e tecnologias, a região que se estendia da Luz até a Barra Funda, ponto final do trem que levava os visitantes aos espaços expositivos.

Essa estrutura foi denominada por nós como o Circuito kinotrem, composta por três componentes: Percurso, o interior do trem do Arte/Cidade; Malha/Rede, uma instalação formada por vários monitores e projeções, com imagens ao vivo e pré-gravadas controladas por um VJ; Unidade Móvel, que permitia uma comunicação em tempo real entre vários bairros.

Este último componente, logo apelidado de ‘kinokombi’ foi o que menos visibilidade teve entre o público freqüentador do Arte/Cidade. A ‘kinokombi’ ficava de fato na rua, e transmitia imagens em tempo real em link duplo, de ida e volta, com a mediação sempre bem humorada feita pela Lucila Meirelles e pelo Pedrão Guimarães. Essa conectividade aberta e democrática acontecia graças a um link/antena de transmissão e recepção instalada no alto de uma das altas chaminés das antigas Fábricas Matarazzo (hoje Casa das Caldeiras)e outro kit igual transportado pela ‘kinokombi’ (como fazem as TVs comerciais mas nunca com essa via de mão dupla). Ou seja, de onde a a equipe da ‘kinokombi’  avistava a chaminé, podia haver transmissão. E assim acontecia, no improviso e buscando evidenciar os contrastes que haviam entre os universos conectados (os artistas e frequentadores dos espaços do Arte/Cidade e a vida muitas vezes desprovida de qualquer glamour dos habitantes da Freguesia do Ó, Barra Funda, Campos Elíseos, Lapa, Bom Retiro e Luz).

A central de exibição, localizada nas Fábricas Matarazzo, guardadas as proporções e a pouca potência dos projetores na época, era uma espécie de espaço multitelas, uma instalação formada por projeções de slides elaborados finamente pela artista Lucia Koch (diretora de arte do kinotrem e também uma das mentoras dos caminhos estéticos do projeto) e com manipulação e mixagem ao vivo (sim, VJ naquela época, bem antes dessa prática se afirmar como categoria de trabalho) conduzida diariamente pelo cineasta Jefferson De.

Lili Caffé foi uma companheira incansável nesse projeto, ajudando a convencer os irmãos Fabiano e Caio Gullane (hoje Gullane Filmes) a encabeçarem a produção e direção geral da empreitada (não apenas executiva mas também criativa – estão ali os vídeos dirigidos pelo Fabiano nessa sua fase de diretor). Uma complexa logística de funcionamento do circuito foi coordenada pelos produtores Rui Pires e Andre Montenegro. Isso envolvia a circulação dos carrinhos de videoarte ‘a la carte’ dentro dos trens, o carregamento diário das pesadas baterias que alimentavam videocassetes e TV’s de 20 polegadas, o empréstimo das câmeras para os visitantes (o interessado em registrar seu percurso deixava sua carteira de identidade e saía com uma câmera já com a fita VHS preparada, com duração pré-definida e no ponto certo).

Nos ajudou muito ainda, sempre me lembro, o Jurandir Muller.

O ano de 1997 foi extremamente intenso. Ali, ao menos para mim, se iniciou uma nova perspectiva em comunicação e arte, desde então, ambas sempre em estreito dialogo com a realidade social que nos rodeia.

  • Enfim, essa é uma das histórias que a exposição resgata. E quem for na Luciana Brito Galeria até 17/04 ainda vai poder ver minha individual Presenças Insustentáveis, que vem sendo extremamente elogiada.

Info: http://www.lucasbambozzi.net

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Kinotrem (1996-1997)

Memória do circuito bidirecional de emissão e recepção de vídeo em tempo real entre os bairros Bom Retiro, Água Branca, Freguesia do Ó, Barra Funda, Luz e Lapa.

Material disponível: cerca de 190 fitas VHS com imagens das transmissões ao vivo ao longo de 14 dias entre a unidade móvel (Kinokombi) e o circuito de exibição controlado por VJ, formado por monitores e projeções nas Indústrias Matarazzo durante o Arte/Cidade III.

ficha técnica:

Concepção original do projeto

Lucas Bambozzi, Eliane Caffé, Fabiano Gullane e Renato Barbieri

Coordenação geral

Lucas Bambozzi

Direção

Eliane Caffé

Fabiano Gullane

Lucas Bambozzi

Direção dos vídeos

Fabiano Gullane

Coordenação de produção

Caio Gullane

Direção de Arte

Lucia Koch

Corte e edição em tempo real

Jefferson De

Intervenções e mediações

Lucila Meirelles

Pedro Guimarães

Produção

André Montenegro

Rui Pires

Pesquisa Histórica

Patricia Trevelyan

João Cláudio de Sena

Pesquisa e Assistência de Direção

Patricia Trevelyan

Eduardo Abad

Realização

Diphusa Mídia Ditial e Arte

SESC

Arte/Cidade

Exposição Galeria Expandida

Curadoria Cristine Mello

Analivia Cordeiro, Ana Paula Lobo, Bruno Faria, Claudio Bueno, Denise Agassi,

Esqueleto Coletivo, Fabiana de Barros, Gilbertto Prado, Lucas Bambozzi,

Regina Silveira, Ricardo Basbaum e Paula Garcia.

Abertura: segunda-feira, dia 05/04/10 às 19h30.

De 5 à 17 de abril de 2010.

Terça a sexta-feira, das 10h às 19h, sábados, das 11h às 17h.

Entrada gratuita.

Luciana Brito Galeria

Rua Gomes de Carvalho, 842, Vila Olímpia, São Paulo, Brasil.

http://www. lucianabritogaleria.com.br/

The Media City, workshop in Amsterdam

From March 22 – April 3, 2010, the Netherlands Media Art Institute and Time Frame will host ‘The Media City’ workshop, dedicated to the exploration of narrative architecture and social interaction on public spaces.

The Media City is a specialized project development workshop for urban projections, taking place in Amsterdam. From March 22 to April 3, eight international artists from Sao Paulo, Lima, Durban, Douala and the Netherlands will be given the opportunity to explore the possibilities of visual programming interfaces for urban facades, and develop their own site specific concept.

The Media City investigates architecture as narrative and social interaction in public space. It is investigating how these specific languages, spaces of cultural meaning, can be translated into media art projects, in which similarities from African and Latin American cities can be found and re-interpreted in Amsterdam.

Architecture plays an important part in the formation of national identities and, hence, the project holds a great potential of allowing artistic examinations into national boundaries, similarities and trans-national visions.

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Participants artists:

Lucas Bambozzi (BR), Gloria Arteaga (PE), Goody Leye (CM), Doung Jahangeer (ZA), Mayura Subhedar (IN/NL), Marnix de Nijs (NL), Edwin van der Heide (NL) and Walter Langelaar (NL). The tutor is: Alexis Anastasiou (BR), Director / VJ of Visualfarm, Brazil

The event includes 3 semi-public lectures. These three evening sessions with artists presentation will try to bring in as much expertise and viewpoints as possible and will foster discussions about the workshop theme among artists, theoreticians, cultural workers and audience. The sessions are interlinked and designed to initiate an ongoing discussion among the participants. The conference language is English.

– Tuesday, March 23, 20:00 – 22:00 : Edwin van der Heide ,Gloria Arteaga, and Doeng Jahangeer.

– Monday, March 29, 20:00 – 22:00: Mayura Subhedar, Goody Leye and Alexis Anastasieu.

– Thursday, April 1, 20:00 – 22:00 : Marnix de Nijs, Lucas Bambozzi and Walter Langelaar.

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more info: http://nimk.nl/nl/the-media-city-workshop

Sobre o projeto meta4walls

Conversa informal entre Lucas Bambozzi e Christine Mello, sobre o site meta4walls, Internet, spam e intenções ligadas ao uso da web para fins artísticos

São Paulo 02/02/2002

o projeto “Meta4walls” foi apresentado na 25ª Bienal Internacional de São Paulo, em área especial voltada à net-arte, curada por Christine Mello e Rudolf Frieling (Alemanha)

http://www.comum.com/diphusa/meta

Christine Mello: Explique o projeto deste site, o Meta4walls

Lucas Bambozzi: A idéia do site é transpor para um trabalho de web, parte de uma pesquisa que conecta mecanismos intrusivos de vários tipos: coisas que vem acontecendo na Internet através dos sistemas de cartão de crédito, procedimentos de seguro saúde, seguro de vida, profusão de webcams e muitos procedimentos de ‘bisbilhotagem’. Principalmente aqueles procedimentos ligados a um contexto que eu vinha observando na Inglaterra ao longo dessa pesquisa, ao que eu vinha fazendo por lá, na condição de artista residente no centro de “CaiiA-Star”. Como eu já havia desenvolvido e planejado teoricamente uma instalação que trataria de alguns aspectos ligados a essa vigilância (a perda de privacidade nos dias de hoje e como essa perda de privacidade vem sendo sentida e vem acontecendo principalmente através da Internet, um espaço público, onde as pessoas expõem situações privadas também), eu pensava, desde o início da pesquisa, em fazer vertentes, projetos que acontecessem na própria Internet, que não fossem uma instalação ou vídeo, mas tratar do que eu venho observando e devolver isso para o ambiente de onde veio, que o engendrou, e que é onde essa coisa toda está mais efervescente. Então eu considero esse projeto um protótipo, uma primeira tentativa, um esboço de outros projetos que podem vir nessa mesma linha.

O tema da vigilância voltou à tona, depois de já ter estado na moda em vários momentos, e mais recentemente, de uma forma bem nítida, na Europa e Inglaterra a partir de 2000/01. Os motivos são vários: um deles é o fato das leis terem sido modificadas para permitir que o Estado e as autoridades utilizem a Internet como forma de exercer práticas, ações, que eles já vinham fazendo com tecnologias mais antigas. Então, essa foi a desculpa que foi dada aos usuários como forma de entrar na vida deles: – a polícia e as autoridades têm que se atualizar, que utilizar métodos que são compatíveis com os métodos dos criminosos hoje. Os criminosos hoje usam a Internet para o terrorismo e pedofilia e a polícia teria que ter sob controle esse ambiente também. Algumas leis foram modificadas nesse sentido, para permitir uma intrusão maior e várias coisas passaram a acontecer, como provedores instalando sistemas de triagem do fluxo de comunicação. Coisas que antes não era permitido por lei, passaram a ser não só permitido como obrigatório. Isso gerou uma certa reação de grupos políticos ou artistas fazendo trabalhos e propostas questionando essas leis. Isso aconteceu em vários níveis. Exemplos: uma revista que se chama “MUTE magazine” que sempre divulgava projetos de arte ligados à política, passou a abordar sistematicamente a vigilância, por exemplo; o ZKM na Alemanha, promoveu no ano passado um prêmio, que eles conferem anualmente e que geralmente é temático (em 2000 o tema foi Cidades e Metrópoles) em 2001 foi “Control Space”, que são duas teclas do computador (ctrl + space bar), mas também se refere ao controle do espaço (virtual e atual). O ZKM, que é essa instituição bem respeitada no mundo das artes digitais, incentivou muito a criação de trabalhos nessa linha. Eu infelizmente perdi o deadline para inscrever este trabalho no ZKM, mas acabei sendo um pouco motivado também, já que eu já vinha trabalhando questões ligadas ao público e ao privado. Eu me senti um pouco na obrigação de fazer algo conectado e adaptado à Internet, e não só dar continuidade ao que eu vinha desenvolvendo antes, que era uma instalação. Então, um dos aspectos é esse: são vários os motivos e há uma ambiente de discussões em torno das questões envolvidas pelo tema.

Outro aspecto é o seguinte: esse trabalho [meta4walls] é resultado de uma coleção de “junk-mail”, de e-mails que a gente recebe de forma meio indevida. São um retrato possível de invasão de privacidade, considerando o computador um instrumento de armazenamento de informações pessoais onde a princípio você deveria poder escolher o que entra e o que sai, o que você guarda. Como sua gaveta, seu armário ou guarda roupas.

Christine Mello: Como um rastro de onde você anda?

Lucas: Não apenas. A princípio você só passa a receber e.mails ligados a site pornôs se você passou por um site pornô. Mas, eu recebo também coisas sobre conserto de cadeira, diploma universitário, viagra, financiamento de casa própria, sendo que eu nunca entrei em nenhum desses sites. Há cruzamentos indevidos de informações pessoais.

Existem sistemas de vários tipos, por exemplo, ligados a cartões de crédito e há uma venda de informação por parte de uma instituição à qual você pertence, na qual você se cadastrou. E essa empresa passa essa informação para outras, sem pedir autorização. Mas, existem coisas mais perversas, por exemplo, geradores de endereços eletrônicos, a partir de um provedor como “Hotmail.com”, é fácil você criar um programa que gere [email protected], [email protected], [email protected], albertino, albertina, etc… , que vai gerando uma lógica de nomes que estariam em frente do @ formando um endereço, que pode ser válido ou não. Fazem um dicionário de nomes. Geralmente esses e.mails permitem que você se descadastre: “se você não deseja mais receber essas informações, clique aqui”. Isso é tão perverso que muitas vezes você clicando ali, aquilo é o ‘ok’ que faltava. Você está simplesmente legitimando aquele nome. Isto pode não acontecer se você não responder. Depois de um tempo, pode ser que eles parem de emitir e.mails para aquele endereço que pode não existir. Na medida em que você dá o “reply”, você diz: esse existe e se ele existe, ele passa a fazer parte de uma lista imensa.

Não há quem não tenha recebido algum e.mail contando alguma forma de enriquecer pela Internet ou como trabalhar em casa usando o seu computador. Uma das formas de trabalhar em casa, usando computador, é gerando SPAM. O trabalho consiste muitas vezes em você gerar e/ou buscar endereços. Você se cadastra com um nome diferente, um nome não existente ou número [email protected] e através desse nome você gera o máximo de SPAM de e.mails possíveis ligados a um determinado produto. SPAM é o envio não autorizado de e.mails, a invasão de sua caixa postal, você recebeu um e.mail que você não solicitou, isso é considerado um SPAM. Uma dessas formas de venda hoje, de obtenção de lucro na Internet, é através de SPAM. A lógica é a seguinte, se você mandou uma mala direta para 10 milhões de pessoas e você tiver um retorno de 0,01% , você teve lucro. O envio de e.mails para 1, 5, 10, 40 milhões de pessoas é cada vez mais barato e é feito através dessa espécie de rede de SPAMers, de geradores de SPAM que se cadastram com um endereço que vai existir só naquele momento do envio, depois ele é esquecido, deixado para traz. É uma corrente sem fim. Pessoas que como eu, tem um endereço há cinco anos estão fadadas a receber SPAM numa ordem crescente e absurda. Pessoas que vendem CDs com endereços eletrônicos vendem a 10, 5 dólares um CD com 15 milhões de endereços. Alguém quer vender um remédio, financiamento, seguros, um produto qualquer na Internet, ele acaba usando esses CDs. Não têm nada a perder, principalmente se esse meio foi gerado por um anônimo, porque se foi gerado por uma companhia conhecida, ela pode ser processada. É uma coisa bem complexa.

Encerrando tudo isso, meu trabalho se apropria desse contexto. Esse contexto de “vale tudo” na Internet, de selvageria, de envio indiscriminado de produtos e ofertas de coisas cada vez mais bizarras. Isso é o conteúdo do trabalho, como forma de criar uma espécie de meta-conteúdo e meta-invasão. Supostamente essa meta-invasão seria capaz de gerar uma espécie de conscientização, ou pelo menos, proporcionar um olhar crítico na pessoa, fazer a pessoa se dar conta desse mecanismo. Eu acho que essa é a função da net art hoje, criar visibilidade, apontar coisas, direcionar a atenção. Não há nada inédito colocado na Internet. A Internet utiliza todo um suporte que vem de várias outras mídias, vem do videogame, do vídeo, do cinema, do texto, do hipertexto, de coisas que já estavam por aí. A Internet teve o poder de fazer convergir isso tudo e ao mesmo tempo de tirar a visibilidade de tudo. Ao mesmo tempo em que tudo existe na Internet, fica cada vez mais difícil de encontrar aquilo que interessa ou produz alguma emoção, aquilo que toca, aquilo que diz e comunica. Eu acho que uma das funções que me interessam (se não é uma função, pelo menos é uma coisa que me interessa muito): é apontar e direcionar a atenção. A visibilidade é um grande problema na Internet, inclusive para o comércio, para o e-business. As pessoas fazem SPAM para tornar um produto visível, para chamar atenção, uma bandeirinha, um tipo de banner. Quem conseguir alguma visibilidade na Internet, consegue em muitos casos ficar muito rico. Então é uma espécie de guerra pela visibilidade.

Este trabalho, no que ele consiste? Consiste na criação de um portal onde estariam reunidas todas essas coisas bizarras. Só que esse portal, a princípio teria de ter uma fachada, um design atraente (ao menos um pouco mais atraente do que os originais), que buscaria um público que normalmente não vai atrás desse conteúdo, ou que tem uma espécie de constrangimento em ir atrás desse conteúdo. Então, seria atraído por um viés um pouco mais “artístico”, um pouco mais ligado ao design. É uma forma de trazer o público da arte para o mundo cão, ou o público que circula no limite do site bem desenhado. Está entre o site bem desenhado (com flash e imagens dúbias, captadas na rede) e esse mundo trash. É uma pequena faixa de público, na verdade, é a faixa de público que eu convivo e que se relacionam com arte através da Internet, com vídeo através da Internet e com cinema através da Internet. Esse trabalho é uma espécie de armadilha, de arapuca pra fazer a pessoa acreditar que está indo para um site de bom gosto, mas na verdade, esse site vai levá-la para o mundo real da Internet, o mundo que eu considero real da Internet. O mundo da selvageria, da venda de qualquer coisa, do sexo, da pornografia. A pornografia montou uma estrutura absurda na Internet.

Christine Mello: É a mesma vertente que você pôs no 1+1?

L: Exato, várias pessoas irem para aquele espaço institucional seguro e se depararem com uma coisa que elas não querem ver ou que elas querem ver, mas estão constrangidas em serem vistas enquanto observam, enquanto vêem. É exatamente isso, você tocou no ponto: isso não é muito consciente da minha parte e curioso porque os trabalhos foram feito em seguida um do outro. Mas eu coleciono esses juke-mails desde 1999. E há desde aquelas mensagens: “cuidado com seus rins, pessoas podem te dar remédio, você vai cair, eles vão te seqüestrar e tirar seus rins enquanto você dorme” (um tipo de boa noite cinderela). Enfim, vários tipos de lendas da Internet: a famosa lenda da criança que sofre de uma doença rara e que você tem que mandar aquele e.mail para 20 pessoas para ajudar essa criança. Passam anos e essa criança volta. São coisas assim, que viraram um pouco lenda, como as pirâmides, a idéia de enriquecer facilmente. Isso constitui o mundo real na Internet.  O fluxo disso é muito maior que o fluxo de web art, é muito maior que o fluxo de comunicação, vamos dizer, útil realmente. A futilidade na Internet é imensa.

Christine Mello: Superficialidade?

L: Eu acho até que essas coisas são profundas em um certo sentido, porque elas estão conectadas com o grosso dos usuários, o caldo mesmo dos usuários.

Christine Mello: Você fica guardando essas mensagens, como você guarda outras coisas, como você guarda imagens quando você tinha banco de imagens, como você guardou os aparelhos de barbas, crachás de hotéis?

L: Eu guardo essas mensagens, geralmente as que chamam mais atenção por serem mais estranhas, quando eu começo a receber várias vezes a mesma, passo a não guardar mais. A primeira vez que eu vi alguém oferecendo consertar cadeira através da Internet, eu guardei, porque aquilo era um tipo de business entrando na Internet de uma forma totalmente inesperada. Hoje acho mais comum haverem pessoas oferecendo para consertar sofá. Mas enfim, esse site é todo feito com material recebido, eu não produzi nenhuma imagem, são imagens que circulam na Internet e foram apropriadas, enviadas para minha caixa postal sem a minha solicitação ou autorização. Desde a imagem do Courbet, até a imagem da mulher com milho ou a imagem de um olho, tudo o que está ali foi retirado desse universo, desse lixão originado da Internet.

Não é uma forma de chocar, não faço isso assim: olha vamos criar um trabalho para chocar. Como faz muito artista (que admiro inclusive), como o Mark Queen, um cara que sempre faz trabalhos de forma a chocar o público (dentro de um contexto espefíco), como a cabeça com sangue. Mas, o que me interessa é essa hipocrisia, a suposta não aceitação social dessas coisas e como cada um lida com isso. O fato de isso trazer vida, sem dúvida, eu acho que isso é algo que move a Internet hoje. Eu acredito que quando fecho os olhos e penso como é o perfil dos usuários, independente de qualquer estatística ou pesquisa, imagino um monte de usuários trabalhando dessa forma, enviando SPAM e entrando nesse submundo. Senhas para site pornô, buscando formas de ter uma vantagem aqui, outra ali, que é  o mundo real. Isso é gerado, principalmente pelos EUA, entre as classes mais ordinárias. Eles vivem muito essa coisa de como se livrar dos débitos, como obter uma renda extra, como sair da vida de assalariado, alguém que não consegue arcar com seus débitos.

A minha idéia é que hoje, nós somos influenciados por um estilo de vida, representado pelo que há de pior no “status quo” americano, e que os nossos pais questionavam em vários aspectos (ao menos os meus). Em nome da globalização estamos absorvendo um estilo de vida que não é nosso. Hoje a gente absorve muito de tudo, de uma forma muito menos perceptível. Só que acredito que através da internet a gente absorve o que realmente há de pior nesse modelo. Não é mais o sonho do carrão, mas é como fazer um financiamento para se livrar de outros financiamentos, como manejar sua dívida, como ter uma vida sexual melhor por meio de pílulas, como trepar melhor com a ajuda de manuais.

Christine Mello: Isso se revela também nesses guias de auto-ajuda. Como se você pudesse estabelecer uma vida sob controle?

L: Uma coisa assim: “venda mais”, “limpe seu crédito em 31 dias”, “esta é a revolução do comércio, entre você também”. A quantidade de e.mails que eu recebo sobre mortgages, loans (empréstimos) é impressionante. Para isso existir dessa forma tão grande, significa que existe público para isso. É isso que vem gerando esse tipo de comércio na Internet, de uma maneira estrondosa. Isso é a vida real na Internet e não adiante fechar os olhos para isso e falar: “não, isso é baixo, é o low Internet, isso não interessa a nós artistas”. Não adianta você querer entrar numa cidade como São Paulo e fechar os olhos para loucura que está aí, tem que enfrentar isso, tem que haver um enfrentamento. O tema já foi, não é a beleza que interessa ao artista há muito tempo. Então, que universo é esse que intriga, que instiga? Que matéria é essa que pode ser processada, ou que eu como artista, como indivíduo, como pessoa viva, que sofre essa tensão da cidade, o que eu posso fazer com isso? Uma coisa que eu tenho certeza, é que eu não posso fechar os olhos para isso.

Então tento uma forma de reprocessamento. No caso, um simples e singelo site. Ele aponta o dedo para essas coisas.  E como eu estava falando, ele é só um protótipo.

Christine Mello: O que é a matéria desse trabalho, o que você recolheu e resolveu usar?

L: ‘Lincando’ com o que a gente estava falando, a matéria desse trabalho é a própria matéria que circula na Internet. Então, um dos temas que o trabalho arranha é a intrusão e a intrusão na Internet é proporcionada em grande parte pelos cookies. Cookies são pequenos programas que quando você entra num site, aquele site coloca algo no seu computador, que faz, entre outras coisas, que na próxima vez que você entre naquele site, você seja identificado como um usuário que voltou. Ele é uma forma de bisbilhotar o seu computador, algo que fica dentro do seu computador.

Christine Mello: Quem coloca esses cookies?

L: Os sites que você visita geram um cookie dentro do seu computador. Os browsers oferecem a opção de você recusea-lo ou aceitá-lo. Mas todo mundo opta por aceitá-los porque a funcionalidade é maior com ele.

Christine Mello: Isso tem a ver com esses programas freehand log ins [??], eles sempre pedem para por nosso e.mail?

L: Essa é uma forma de registro para você poder comunicar com o serviço gratuito deles, para registrar o numero de série do seu software. Alguns usam cookies sim. A Apple por exemplo, usa cookie para que na próxima vez que você entrar no suporte técnico, eles terem um histórico do seu problema. Geralmente você entra para procurar ajuda sobre um problema técnico, então eles já sabem qual é o seu computador, qual é o seu sistema operacional. Ao invés de te perguntarem, isso já é passado automaticamente. O cookie tem uma utilidade genial, por exemplo, você entra num site que fornece informação, um jornal, “The Times” ou “Folha de São Paulo”, e depois de um certo tempo, se você entra no mesmo site (não sei que tipo de sistemas esse que eu citei usam),  se você só entra em cultura ou política, então da próxima vez, eles passam a te oferecer apenas cultura e política. É uma forma de te tratar diferenciadamente e personalizadamente. Só que é também uma coisa que está te vigiando, sabendo o que você faz.

Christine Mello: Nesse caso, você pegou isso de que jeito?

L: O trabalho utiliza em termos de tecnologia, apenas HTML básico, além de Flash.

Christine Mello: O HTML é uma linguagem?

L: O HTML é uma linguagem básica, estrutural da Internet. E utilizo Flash para incluir animações e programações, e permite animações interativas, permite criar situações randômicas, em programações mais ou menos complexas com bastante dinamismo — em um potencial que ainda não dou conta de explorar sozinho. As situações são pré-programadas e interativas em função dos clicks do usuário.

Christine Mello: Você acha que o Flash não te deixa muito próximo do que seria agir numa ilha de edição?

L: Depende. O Flash tem muitos usos, existem tipos diferentes de Flash. Tem a função do plug in, que permite que uma animação rode na sua tela. Ou permite acrescentar coisas. Por exemplo, tem uma aplicação interessante com Flash onde você partir de uma música tendo toda base dela separada. E  você pode remixar a música em tempo real. Remixar, não dá para fazer isso numa ilha dessa forma que estou falando.

Christine Mello: Você falou de música, isso dá para fazer com imagem também? Criar por exemplo uma peça audiovisual que exista e está em digital e você pega tudo isso que você falou da música e remixa essa musica ao vivo?

L: Dá pra fazer com pequenos clips, por exemplo. Tem jeito de usar o flash dessa forma. No meu caso, o Flash é utilizado na programação dos caminhos possíveis. A árvore de caminhos e opções do usuário foi feita em Flash. Poderia ter sido feita em Java (que é open-source), poderia ter sido feita através de CGI’s e poderia ter sido feita com HTML.

Christine Mello: Qual é a diferença se você tivesse ido ao encontro do Java, ou do HTML, ao invés de ter ido ao encontro do Flash?

L: O Flash é um aplicativo proprietário, ates da Macromedia e agora da Adobe. Isso já tem um si um caráter ideológico, o que me incomoda. Eu preferiria utilizar uma linguagem aberta, mas não sou programador. Em termos de estrutura as coisas são intrincadas, porque por exemplo, dentro do Flash tem Java Script. Não é dentro de todo flash que tem Java, mas dentro do meu tem alguns scripts em Java. Então, é uma coisa meio intrincada. Cada vez mais a programação disso esconde o que está acontecendo exatamente com a programação em HTML. Tudo isso depois vira HTML. depois acontece em um ambiente em transito entre o servidor e o computador usuário, onde os arquivos HTML demandam os JPGs, os arquivos flash SWF e outros que estão dentro também. O Flash pode ser rodado linearmente e pode ser interrompido nessa linearidade e utilizar uma outra linearidade. Ou lincar momentos diferentes desses caminhos. No meu caso é isso, mas tem várias formas de fazer. Eu já soube o que acontecia por trás da programação. Olhando os códigos da fonte (source) de programação, em 95, 96 eu já sabia ler tudo ali. A coisa ficou muito mais complexa hoje, e eu não sei me mover muito sozinho mais. Esse pessoal (Limbomedia) que me fez a programação utilizou basicamente isso, Flash com Java Script.

Christine Mello: Esse pessoal se chama como, engenheiro?

L: São designers de programação, não são designers gráficos. No caso eles são designers mesmo inclusive porque eles são ingleses, mas você poderia falar programadores, (ou developers pra continuar no Inglês). Tem gente que não gosta de ser chamado de programador, prefere ser chamado de designer, porque a questão do designer prevê como programar, que ferramenta utilizar na programação, é realmente um desenho de programação. Tem pessoas que vão discordar de mim.

Christine Mello: Como foi a tua conversa com eles, eles iam decidindo utilizar essas ferramentas a partir do que?

L: Eu expliquei qual era a intenção. Eu não sou totalmente leigo na questão, então, como forma de explicar enviei algumas telas: olha, quero ligar isso com isso. O fato de eu ter enviado algumas telas, sugestões visuais desenhadas graficamente, sugeriram para eles utilizar essa ou outra ferramenta.

Agora voltando à idéia dos cookies, o tempo todo você está aceitando cookies que são instalados no seu computador em muitas navegações. A idéia desse projeto sempre foi uma forma de devolver ao espectador, as informações acessadas através do cookie.  É a idéia de mostrar para o usuário que o sistema, que o site que ele esta visitando sabe mais sobre ele, sobre o usuário, do que ele pensa. Então, a idéia original era mostrar isso: que o cara que tivesse algum constrangimento ao entrar, ou que ele estivesse entrando de uma forma meio assustada, meio insegura, que depois tudo  isso retornasse para o usuário. E eu pensei inicialmente que isso poderia acontecer na forma de um telefonema real que o sistema gerasse a parti do acesso.

Christine Mello: Que é aquilo que depois vai ter na instalação?

L: Não nessa “4Walls”. Existe um projeto futuro.

Christine Mello: Na videoinstalação?

L: Não. A videoinstalação não tem telefonema.

Christine Mello: Você falou que previa isso…

L: Previa, mas isso envolve (além de negociações impossíveis com o sistema de telefonia brasileiro) uma programação bem cara. A idéia previa que a pessoa recebesse um telefonema ou uma carta com relatório descrevendo por onde ela passeou. Porque nessas sessões de Internet, muita gente as faz de forma escondida. Escondida do chefe no trabalho, o filho escondido dos pais. Isso é um problema hoje em dia na Europa, não digo moral, mas um problema sério assim: as empresas são responsáveis pelo que os funcionários fazem quando estão on line, se um funcionário esta acessando um site de pedofilia nos computadores da rede da empresa, a empresa é punida. Então, ela tem que policiar o conteúdo do que está acontecendo nos computadores dos usuários, porque existe uma lei hoje (potencializada na cabeça dos patrões principalmente depois do 11 de setembro), na qual está previsto que se você sabe de uma atividade terrorista e não denuncia, você é tão terrorista quanto o terrorista. Se uma empresa permite que um computador dela seja usado para uma atividade ilícita, ela tem que punir quem está utilizando. Isso gerou vários desempregos na Inglaterra. É uma coisa muito séria.

Christine Mello: O caminho que a gente faz é os cookies?

L: Os cookies existem no site, e são colocados através do Flash, da programação em Java Script e alguns formulários. Isso é uma forma de dar um feedback para o usuário. O usuário depois de passear no site por m tempo, ele recebe um relatório na tela, esse relatório vem na frente de tudo que ele esta vendo e mostra, fala assim, você esta usando um computador tipo PC IBM ou Macintosh… a resolução do seu monitor…

Christine Mello: Aquelas informações que aparecem, como se chama aquilo?

Aquilo é retirado na forma de um cookie. Aquilo é um cookie instalado, enquanto você está navegando pelo site, é instalado no computador do usuário que devolve aquela informação. É uma bisbilhotagem que o meu site faz no usuário, no computador do usuário.

Christine Mello: O cookie é um recurso criativo?

L: Ele pode ser. Ao menos está sendo usado aqui, mas a principio é um recurso de coleta de informação do usuário. Por isso, a Bienal não é um ambiente exatamente propício para mostrar esse site, porque ele prevê que o usuário esteja acessando aquilo entre quatro paredes, no ambiente dele, escondido, de uma forma solitária e não em um terminal público. Isso é importante que seja explicado, e está aqui gravado para você usar no texto. O ambiente ideal desse trabalho é esse ambiente entre 4 paredes, que cada um vê meio solitariamente e que à medida em que vai navegando, vai aflorando seus desejos ou, vamos dizer, o lado mais perverso, de ir por esse mundo abissal, meio mundano  e trash. Na medida em que ele se espelha e vê, ele percebe: “ops, alguém está coletando informações sobre mim, alguém sabe o que eu estou fazendo aqui”. Isso causa algum tipo de reação com relação ao sistema de vigilância.

Christine Mello: A gente pode dizer que a gente entra no trabalho, como é o processo de entrar de uma janela para outra?

L: No início ele vê uma imagem do Courbet, que é uma imagem dúbia, porque é uma mulher de pernas abertas, mas que é a também uma pintura que já foi apropriada pelo Duchamp. É uma pintura conhecida e que não é considerada obscena, mas que no contexto de um site é dúbia. Essa dubiedade é interessante, faz com que a pessoa queira saber o que esta por traz daquilo, então, na medida em que ela avança nas camadas, ela vai encontrando um nível subsequente.

Christine Mello: Essas camadas de janela?

L: De janela, de layers, ela entra numa próxima janela, já é uma mulher se enfiando um milho. A primeira vez que eu vi aquela imagem fiquei excitado. Através da excitação alguém pode ir ao próximo estágio, querendo algo do tipo: “eu quero mais disso que eu estou vendo”. Na medida em que a pessoa quer mais, ela procura ir mais adiante, e vai deixando um rastro por onde está indo. Esse rastro é devolvido para o usuário depois, que relata por onde ele passeou. Isso é uma forma de confrontar, de fazer a pessoa pensar no que é hoje a invasão de privacidade, a invasão dentro do seu proprio sistema, seu espaço privado.

House of Art

Estamos caminhando para o final do projeto Redbull House of Art, um projeto de residência artística que estou coordenando junto com a Maria Montero (a convite da Manifesta) no Hotel Central, na Avenida Sao João 288, no Anhangabau.

Ontem, dia 25 de novembro foi o ultimo dia da primeira exposiçao. Os 10 artistas convidados estão trabalhando na próxima, que abre dia 04 de dezembro. Alem de ser um local muito interessante, num hotel desenhado pelo escritorio Ramos de Azevedo em 1918, essa expo introduz bem os propositos que conseguimos imprimir ao projeto, que é proporcionar um ambiente bacana, aberto, com recursos pros artistas criarem novos trabalhos, e que isso possa fazer alguma diferenca em suas vidas. O patrocinio da Redbull incomoda muitos artistas e críticos, mas conseguimos fazer os bons propositos se sobreporem em muito ao interesse marketeiro que predomina em muitos projetos desse tipo. Qem for vai se surpreender com isso, temos certeza.

http://redbullhouseofart.com.br

http://www.flickr.com/photos/redbullhouseofart

http://www.lost.art.br/redbull_houseofart_opening.htm

Festival arte.mov

Festival arte.mov : arte em mídias móveis 2010

Aconteceu entre 22 e 26 de setembro de 2010 a primeira edição do Festival arte.mov no Pará. Muita coisa para ser relatada. Opto aqui por transcrever alguns comentários dos dias e posto algumas imagens.

“Dispositivos alucinam a Amazônia” na primeira noite de debates em Belém

relato: dia #1:

A primeira noite de debates do Festival arte.mov em Belém começou com a produtora Giseli Vasconcelos: “Descentralizemos!” Ao lado de Lucas Bambozzi e Fabrício Santos, Giseli deu início ao Simpósio Novas Cartografias Urbanas, no Fórum Landi. “Cada cidade tem características próprias e esta edição do evento respeita essas particularidades. O investimento em Belém é mais no sentido de formação e compartilhamento do que trazer experiências prontas”, destacou Bambozzi.

Após o primeiro debate, os artistas Val Sampaio, Jarbas Jácome e Nacho Durán apresentaram o showcase do projeto Água, dividindo com a platéia um pouco da experiência de viver a bordo de um barco no Baixo Amazonas, coletando dados sobre os fluxos das águas – uma autêntica “residência móvel”, nas palavras de Val. “Foi uma negociação com a natureza. Teve um dia em que ventava muito e o barco não pôde sair. Estávamos presos no paraíso – se a internet funcionasse, é claro”, brincou.

ESPAÇO EM MOVIMENTO – A última mesa da noite, mediada por Marcus Bastos, teve Ricardo Folhes e Ivana Bentes discutindo “O espaço em movimento, a paisagem em adaptação”, tema que desencadeou grande interesse em platéias físicas e virtuais. “O ideal seria que esse povo pudesse cartografar e visibilizar sua realidade, através dessa geotecnologia. GPS vira arma em mãos de caboclos na Amazônia”, pontuou Folhes.

Ivana Bentes, por sua vez, chamou a atenção para o que chamou de “overcartografia” em que vivemos hoje com tecnologias como GoogleMaps, redes de rastreamento e afins. Continuou discorrendo sobre o imaginário amazônico: “Ao viajar pela amazônia, a monotonia chega ao sublime, é uma experiência radical. Parece um filme do Antonioni: nada acontece e tudo acontece. Dispositivos alucinam a Amazônia”, arrematou.

Belém

Projeções na rua se tornaram essenciais e em sintonia com a Praça do Carmo

 

junto às projeções, o orelhão de Ouvidoria, de Lourival Cuquinha

a bike.mov, utilizada para fazer projeções móveis e customizadas, em função de cada espaço

projeção do vídeo resultante da oficina de Fabiane Borges e Nacho Duran, que abordou cruzamentos entre sexualidade e mídias móveis

participantes da oficina ADC Belem se preparam para sair para as ruas. cada bicicleta se tornou um sound-system, todas tocando ao mesmo, em incrível harmonia orquestrada por Tal Isaac Haddad tempo

as demais fotos do festival em 2010 estão aqui: www.flickr.com/photos/artemov/sets/72157625032458268/

 

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Vivo arte.mov 2008

 

3º festival internacional de arte em mídias móveis

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20 a 25 de novembro, 2008

Palácio das Artes, Belo Horizonte, Brasil

26 de novembro a 07 de dezembro, 2008

MIS-MUBE, São Paulo, Brasil


flyer4

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Mostra competitiva
Uma amostra representativa da produção recente audiovisual para pequenos formatos selecionada dentre as mais de 600 inscrições recebidas.
 

Mostra Informativas Internacionais
· Festival Dotmov (Japão)
· Pocket films (França)
· Historias de Bolsillo – diálogo construido com mídias móveis entre Constantini e Llanos (México)

 

Simpósio “Apropiações do (in)comum> Espaço público e privado em tempos de mobilidade”
· Tecno-determinismo e acessibilidade, estratégias de difusão em redes e acesso à informação
· Realidades Mistas: Convergências esperadas x convergências implantadas
· Redimensionamento do espaço público: tecnologias sociais em rede
· Mídias móveis e arte: perspectivas e críticas das mídias móveis no Brasil
Exposições
· Descontinua Paisagem (Fernando Velázquez e Julià Carboneras)
· Memo_ando (Raquel Kogan e Lea Van Steen)
· Ascese (Rodrigo Castro de Jesus)
· Série se… (Joacélio Batista)
· !Alerting infraestructure! (Jonah Brucker-Cohen)
· Inquisitive devices (Jonah Brucker-Cohen)
· Forward compatible (Jonah Brucker-Cohen)
· The head (Laura Beloff)
· Locative Painting (Martha Gabriel)
· Can you see me now? – live game! and documentation (Blast Theory)
· Videoman 5.5 (Fernando Llanos)
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. curadoria: Lucas Bambozzi, Marcus Bastos, Rodrigo Minelli
. coordenação: Aluizer Malab, Lucas Bambozzi, Marcos Boffa, Rodrigo Minelli

Container art: contendo vídeo

Container Art é um modelo de exposição que acontece em algumas cidades do mundo, no qual obras de artistas são expostas em containeres espalhados em áreas públicas. Em São Paulo o projeto acontece por iniciativa do Roesler Hotel e Automática, reunindo no Parque Villa Lobos, um recorte expressivo da videoarte brasileira.

e-convite CONTAINER'ART

http://www.containerart.com.br

texto curatorial: containerartsp

58 trabalhos em video

convite da mostra container art: 58 trabalhos em vídeo